"Eu acho que estou me sentindo meio mal.
Quer dizer, acho não.
Tenho certeza.
Essas paredes frias me encaram, cheias de umidade, como se chorassem pelo meu terrível destino. O musgo impregnado em suas pedras parece estar ali para tentar, de alguma forma, amaciar o que está por vir.
Ah, se pudessem!
O luar filtra-se pelas barras enferrujadas da janela e vem se deitar no chão, ao meu lado. O céu, límpido e azul escuro profundo, abriga uma infinidade de estrelas piscantes. A lua minguante sorri.
É uma noite fabulosa. Minha última noite... Parece uma espécie de despedida do mundo. Uma coruja pia seu canto triste e profundo. “Adeus, adeus”.
Encolhida a um canto, não posso deixar de sorrir com a lágrima que me vem. Como se eu merecesse todo esse carinho da natureza. Como se tivesse realmente pertencido a ela algum dia, fazendo o bem, tratando-a bem.
Minha vida foi repleta de ações desesperadas.
Fugas, trapaças, mentiras.
Não que eu tenha gostado, mas foi assim que vivi. Foi assim que aprendi a viver. Sobreviver. Só sobreviver.
Ah, como eu gostaria que tudo fosse diferente. Como eu gostaria de ter podido tentar vier um pouco. Só por um dia, não ter que me esconder. Só por uma noite, poder dormir com os dois olhos fechados. Só uma vez, não ter que inventar uma história que se encaixasse nas outras tantas, e me fazer passar por outra coisa.
Puxa, o que eu não daria por uma refeição decente! Ou por algum momento divertido, em que eu pudesse rir sem medo, rir sem me preocupar com o depois. Um céu bonito que eu pudesse parar e olhar, uma companhia que me conhecesse de verdade. Me apoiasse. E me amasse.
Eu daria qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Mas acho que o mundo reservou um destino diferente para mim.
Um destino sofrido, e muito curto.
Acho que é por isso, sorrio com amargura. Por isso essa noite espetacular, essa brisa quente, essa despedida. O mundo está com pena de mim. Com pena do destino horrível que me deu. Talvez esteja até um pouco arrependido, e queira compensar tudo o que passei com a melhor, a mais esplendorosa noite que já se viu.
Ou que eu vi, pelo menos.
Nada mau, falo baixinho. Nada mau.
Se eu não soubesse que o que me espera é provavelmente o pior sofrimento que jamais senti, até diria que compensa.
Mas valeu a tentativa, mundo.
Vou pensar no sorriso triste da lua e do canto da coruja amanhã.
Pode ser que ajude.
Espero que ajude.
Realmente espero."
Confusão Interior
Há 15 anos

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